historia e meio ambiente
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AS LEVADAS DA MADEIRA: DO PRIVADO AO PÚBLICO
ALBERTO VIEIRA
Desde tempos imemoriais a água foi o motor da História: saciou a sede os sedentos,
serviu para aproximar os homens, ou para substitui-lo em algumas tarefas e dar vida e...
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AS LEVADAS DA MADEIRA: DO PRIVADO AO PÚBLICO
ALBERTO VIEIRA
Desde tempos imemoriais a água foi o motor da História: saciou a sede os sedentos,
serviu para aproximar os homens, ou para substitui-lo em algumas tarefas e dar vida e
riqueza aos campos.
Por tudo isto a água assume uma função vitalizadora da
economia.
Fernand Braudel identifica a cultura de sequeiro com a liberdade e a de
regadio com a escravatura.
Foi isso, na verdade, que aconteceu na Madeira.
Os
escravos traçaram as levadas e os heréus envolveram-se numa subjugação total à
água, alimentando querelas.
A afirmação da cultura da cana sacarina nos primórdios da ocupação da ilha
obrigou à definição de um sistema de canalização da água no sentido da sua utilização
para o regadio e aproveitamento da sua força motriz nos engenhos.
O primeiro e mais
importante investimento dos madeirenses foi na construção de levadas.
Por isso
mesmo a água assumiu um papel fundamental na economia e sociedade de então.
A partir dos anos trinta do século XVI a cultura da cana de açúcar entrou num
processo de lenta agonia que conduz à plena afirmação da cultura da vinha, uma
cultura de sequeiro.
As levadas foram abandonadas e só se lhes deu atenção em finais
do século XVIII quando a cultura da vida enfrenta as primeiras dificuldades.
A partir
do primeiro quartel do século XIX a crise dos mercados do vinho afectou a
agricultura madeirense e impelem a pressão junto do Estado no sentido de um
investimento no sector hidroagrícola.
Apostou-se em culturas de regadio de
subsistência ou para o mercado, como a cana sacarina.
Daí a pressão dos madeirenses
junto do Estado para investir no desenvolvimento económico através do lançamento
de infra-estruturas indispensáveis, como as levadas e estradas.
O investimento do estado no sistema de regadio, através da construção de
levadas, é apenas uma realidade do século XIX.
Não obstante existir uma opinião de
que a água deveria ser estatizada, a presença do Estado continuou a ser muito
precária.
Deste modo em finais do século XIX a presença do Estado significava
apenas 15% do total de água de regadio, dispondo apenas de cinco levadas num total
de quatrocentas.
A distribuição da água segue o sistema de regadio existente no Norte de
Portugal, e não árabe, que funciona por gravidade.
As levadas são de iniciativa
privada.
A intervenção do poder público acontece apenas na licença de construção,
nas condições para o avanço do seu traçado e na partição e distribuição das águas.
Uma das tarefas dos primeiros colonos foi a tiragem das levadas.
Por isso elas são os
imemoriais testemunhos do labor do homem insular que se perpetuaram na ilha, a
exemplo dos imponentes aquedutos peninsulares.
A aportação das técnicas de regadio na Madeira surge por duas vias.
Os
colonos do norte de Portugal trouxeram parte significativa dessa, enquanto do
Mediterrâneo, Sicília e Valencia, conjuntamente com o açúcar vieram os sistemas de
regadio dos canaviais e de utilização da força motriz da água.
O contributo
madeirense está no esforço hercúleo dos madeirenses para tornar acessível o uso da
água ter sido um empreendimento privado, dos próprios lavradores e açúcar.
Foram
eles que construíram as levadas para mover os engenhos e regar os seus canaviais.
Aqui, ao contrário do Mediterrâneo o estado não intervêm no processo.
O plano de levadas da ilha não ficou concluído no século XVII foi apenas
adiado pela afirmação da vinha, uma cultura de sequeiro, e, por isso mesmo, quando a
cana retornou à ilha, no século XIX, de novo se pôs a questão das levadas para irrigar
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