Amarelixa
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Gonçalo Mendes — Contos Infantis Amarelixa Era uma vez uma aldeia de lagartixas situada na parede de um poio. O socalco ficava meio escondido no meio dos vinhedos que subiam a encosta, do mar até à serra mais alta, de uma ilha muito linda. Nessa parede de pedregulhos sobrepostos, as lagartixas instalaram-se nas pequenas fendas, entre as pedras, protegendo-se das intempéries e dos seus predadores mais temíveis: os gatos, os ratos, os francelhos e os meninos maus. Não se sabe ao certo quantas lagartixas viviam na aldeia. Conta a lenda que a rainha Tixa, uma lagartixa enorme, verde com riscas escuras, uma cauda majestosa e uma língua monumental, governava a aldeia com mão de ferro. Ou melhor, com cauda de ferro, pois era com ela que castigava duramente os súbditos que se atrevessem a mostrar a língua mais do que deviam. Por isso, todos os habitantes da aldeia lhe obedeciam cegamente e não se atreviam a contrariar as suas ordens. Na sua gruta, bem protegida e onde não conseguia entrar nenhum outro animal que a ameaçasse, a rainha Tixa colocava os seus ovos. Certa vez, numa das ninhadas nasceu uma lagartixinha diferente. Ao contrário de todas as outras, todas riscadinhas de bandas castanhas escuras e manchas amareladas arredondadas, esta tinha riscas largas, amarelas e muito poucas manchas, que mais pareciam pequenos pontinhos, avermelhados. — Mas que estranho, pensou a mãe Tixa. E logo a baptizou de Amarelixa. Princesa Amarelixa, mais propriamente, pois filha de rainha será sempre princesa, mesmo que seja de cor diferente. Mais do que isso, continuou a magicar com os seus botões a rainha Tixa: “Se ela nasceu diferente isso só quer dizer que o seu futuro será também diferente. Para melhor, espero. ” Correu então na aldeia o boato que a rainha tinha tido uma filha esquisita, diferente. Ninguém sabia o que queria aquilo significar. Nunca tal tinha acontecido. Nunca ninguém tinha visto tal coisa. Isso seria bom? Seria mau? Quem saberia dizer? A entrada da gruta real foi então invadida por uma multidão de curiosos desejosos para serem os primeiros a verem a “criatura”. 1